Jim Clark de saias em Southampton River
Janeiro de 1977. Depois de nove traumáticos meses deambulando como um zombi, na pele de um exilado forçado, pelas ruas de Lisboa, na sequência de uma “descolonização exemplar”, surgiu-me a oportunidade de ir “lavar pratos” para a gélida, enevoada e anémica Inglaterra.
Tinha sido obrigado a deixar para trás o doce balançar dos coqueirais da terra que me viu nascer, às margens do Índico, os pores do sol alucinantes por cima dos tandos(1) da Gorongosa – terra-mãe generosa, qual Arca de Noé prenhe com a sua bíblica diversidade animal – e os horizontes infinitos de um continente grandioso e belo, de clima viril e solo fértil.
Era agora obrigado a lidar com um Portugal pequenino, não só na sua minúscula amplitude geográfica como também – sobretudo! – na sua mentalidade atrasadinha e bolorenta, beata e salazarenta.
Desde as lonjuras da terra africana que tinha aprendido, pela boca do meu pai, que o ar que se respirava na então chamada Metrópole era pesado e triste. Por isso mesmo ele decidiu um dia deixar o seu confortável emprego como analista de laboratório na Junta Nacional do Vinho, em Lisboa, para procurar outros horizontes – geográficos e mentais – onde pudesse criar os filhos de uma forma livre e arejada.
Como um milhão mais de anónimos “retornados” e “colonialistas” de toda a espécie – que passeavam leões pela trela nas espaçosas avenidas e amplas praças e jardins das modernas e bem delineadas cidades africanas onde se falava a língua de Camões e Pessoa – também eu e a minha família fomos forçados a procurar refúgio, a contra-gosto, neste cantinho revolucionário que em tempos idos pariu Gamas e Cabrais.
Face ao cenário daquele momento, a possibilidade de ir “lavar pratos” para Inglaterra pareceu-me um mal menor, visto não ter a perspectiva de conseguir trabalho em Portugal a breve trecho.
Mal agasalhado, levando em cima da pele apenas um fino casaco oferecido pela Cruz Vermelha, e totalmente despreparado para enfrentar um dos climas mais merdosos do planeta, lá vou eu com a felicidade dos inocentes no rosto e o contentamento dos tolos na alma para terras de Sua Majestade.
De Londres levaram-me para Southampton, a cerca de 200 km a sul da capital, e aí me “estabeleci”, em Woolston, na margem esquerda do rio que banha aquela cidade.
O meu trabalho não consistia exactamente em lavar pratos – isso seria uns meses mais tarde num hotel da city londrina, com vista para Hyde Park, algo realmente “muito fino”, muito very british – mas sim em vender souvenirs ingleses a marinheiros brasileiros. Por insólito que possa parecer, a explicação encontrava-se no facto de estarem a ser construídas nos estaleiros locais duas fragatas de guerra para a marinha brasileira, existindo ali um aquartelamento com o pomposo nome de Brazilian Naval Commission, com Almirante e tudo.
Devido à aspereza do clima e das gentes, tão frias e apagadas como o seu sol de inverno – o qual raramente faz a sua aparição mesmo nas outras estações do ano – mas também tão insípidas como a sua paupérrima gastronomia, os meus tempos livres eram passados, inevitavelmente, em casa, fechado, de aquecimento ligado e embrulhado numa manta. Vinham-me então à memória diversos relatos de gente desterrada para os destinos mais inóspitos, desde a estepe russa às prisões da Guiana Francesa, desde os campos de extermínio do holocausto aos campos de concentração que começavam a ser criados, precisamente nesse momento, nalgumas regiões do Moçambique independente e marxista-leninista. Apesar de não poder comparar a minha situação de homem livre com a de milhares e milhões de seres humanos que, ao longo da história da humanidade, sofreram os mais inenarráveis atropelos e violações, a minha sensibilidade para questões como a liberdade individual, in lato senso, vieram pela primeira vez ao de cima. O que era afinal ser livre? Será que somos realmente livres face aos desígnios do poder político, à pressão do mercado ou à tirania das modas? Não seremos apenas fruto de um determinado contexto social e cultural? Será possível modificarmos estes condicionalismos e vivermos a vida como nos dá na real gana, sem nos importarmos com o social de que fazemos parte? Valerá a pena? Seremos capazes? Qual é o preço que temos que pagar por assumirmos tais atitudes?
Estes foram alguns dos pensamentos que durante vários meses me montaram emboscadas no meio do espesso nevoeiro inglês, com o frio e a chuva permanentes a desgastarem a minha força de vontade, estando prestes a desistir, prematuramente, da minha aventura inglesa, por manifestos sintomas de congelamento da alma e dos neurónios. Hoje, depois de vários regressos ao abraço quente e aconchegante dos trópicos, nem a peso de ouro me levavam de novo para a bolorenta Albion!
Foi então que uns “caras” brasileiros, da tal Comissão Naval Brasileira, – chefiada por um enjoado Almirante – pouco mais velhos que eu e marinheiros sem patente, me convidaram a ir a um dancing certa noite. Eram todos frequentadores, quase diários, de um desses espaços de convívio e dança onde, segundo me contavam, os “neguinhos” faziam o maior sucesso, mesmo sem saberem dizer uma palavra na língua de Shakespeare.
E lá vou eu, enturmado com aquela “galera”, tentando sacudir o frio do corpo e a solidão da alma. Constatei então que os novos amigos – entre cariocas, paulistanos, baianos e mineiros – eram realmente bastante cotizados pelo mulherio local. Evidenciavam realmente um grande à-vontade na forma como ali se movimentavam, parecendo que nunca tinha vivido noutro lugar, muito mais ao sul do mundo, nem feito outra coisa que não fosse mover-se entre mulheres loiras ao ritmo de música slow.
Fui então convidado para me sentar numa mesa onde já se encontravam vários “casais” devidamente emparceirados, sobrando apenas uma linda e frágil boneca de cera, mais loira que as loiras, e com uns olhos de um azul impossível. Como menino educado em bons colégios, apresentei-me de forma breve mas clara.
- My name is Jaime! Nice to meet you!
Wooooow!!! – ouviu-se em coro.
Não entendi, num primeiro momento, o que se passava. Só depois de uns breves instantes, já em alegre e descontraída cavaqueira, me apercebi do que tinha passado por aquelas lindas e bem penteadas cabecinhas: “Finalmente um brasileiro que fala inglês”! rsrs
Foi então que o mais que óbvio aconteceu, numa espécie de filme barato com um guião demasiado evidente: a mais loira das loiras, a tal dos olhos de um azul impossível, chegou-se para a ponta da mesa onde eu me encontrava, sussurrou-me o seu nome de forma arrastada - estudada, pretensamente sensual – e, enquanto me estendia a sua delicada mão, levemente transpirada, disse-me um par de trivialidades e fez-me desaparecer com ela dali para fora.
Quando dei por mim, encontrava-me nos seus braços, num lento mas apertado abraço de sucuri, no meio daquela enorme pista de dança, enquanto a orquestra atacava Strangers in the night. Logo eu, que nunca tinha sido muito dado às artes da dança, que nunca até então tinha tido a ousadia de desafiar qualquer mulher para dançar – apesar dos meus 21 anos - acabava de ser aspirado para o meio daquele turbilhão rodopiante, como que por mão invisível.
Mais tarde, em minha casa, acendemos “a já costumeira velinha de igreja, pusemos a rádio no on, pusemos no off o telefone” – onde é que eu já ouvi isto? – “trocámos beijos, trocámos de corpo, ai é tão bom, é tão bom”! Que tenhas uma longa vida e nunca te falta a criatividade, Sérgio Godinho.
Por artes de mágica, o horroroso inverno de Sua Majestade tinha-se eclipsado, o sol tinha voltado a brilhar na minha vida de andarilho iniciante e as cores do arco-íris pairavam por cima da minha cabeça.
Passaram-se semanas, passaram-se meses, e a oportunidade de ser “promovido", indo trabalhar para uma escura lavandaria de hotel na city londrina, apresentou-se como um mal menor, uma vez que assim me libertava do crápula brasileiro que me dava trabalho. E então, cadê a mais loira das loiras? Que faria com aquela jovem mulher inglesa, casada, tão meiga e afável, linda como um amor-perfeito e mais perfumada que o jasmim-do-Paraguai, “abandonada” assim por mim às margens do belo estuário de maré conhecido como Southampton Water?
Hoje, em Junho de 2026, quase duas décadas depois de o ter iniciado, encontrei com surpresa este texto, inacabado, e não sinto coragem de o terminar, muito embora me continue a lembrar, com muito carinho, daquela espécie de Marilyn Monroe britânica que foi tão generosa comigo, sendo eu um menino africano perdido numa terra fria e sem sol, onde a água se congelava nas calçadas e se comia “fish and ships” e “baconed beans” insípidos, que jamais poderiam deliciar as exigentes papilas gustativas de alguém que tinha sido criado no meio das bondades da gastronomia portuguesa, fundida com aromas africanos e especiarias do continente indiano.
Recordarei para sempre a forma exímia como conduzia o seu belo Ford Escort vermelho, um carro que se impunha naqueles anos no mundo dos ralis. Nele me levou a conhecer as imediações daquela terra fria, sempre por paisagens cinzentas, cheias de nevoeiro, mas que a sua presença iluminava com um brilho dourado, quente, envolvente. Os passeios transcorriam quase sempre por pisos molhados e com visibilidade reduzida, muitas vezes debaixo de chuva, mas nunca me senti inseguro no lugar do “pendura” pois aquele anjo com saias conduzia o seu Escort com muita mestria e, porque não dizê-lo, até com um toque de “atrevimento”, algo que me deliciava. Passávamos longas horas a conversar dentro do Escort, enquanto comíamos as tais “fish and ships”. Lá fora, invariavelmente chuviscava e o frio era intenso, o que não convidava a passear pelos verdes campos da região.
Lembro-me que sempre nos despedíamos com um beijo apaixonado, e que costumava dizer que só recebia beijos quando estava comigo. A solidão e o desamor dentro de um casamento deve ser algo terrível, e vá-se lá saber o que leva tanta gente a suportar uma relação assim. Haverá tantas causas como pessoas, imagino eu.
Algumas semanas depois de eu ter ido viver para Londres, foi-me visitar, algo que sempre tinha prometido que faria, mas em que eu nunca acreditei. Este sentimento era reforçado pela senhora portuguesa que me alugava um confortável quarto no bairro de Wembley, mesmo em frente ao famoso estádio, e a pouca distância da estação de metro, que se chama Wembley Park Station. Esta boa senhora, com idade de ser minha mãe, aconselhava-me a não ter muitas ilusões pois, segundo ela, com a experiência que tinha de viver há mais de vinte invernos em Inglaterra, jamais uma inglesa faria tantos quilómetros para encontrar-se comigo. Pedi-lhe autorização para receber em sua casa a minha amiga, ao que ela acedeu sem qualquer reserva, algo que ainda hoje me faz sorrir de gratidão. Fora da nossa terra, na dureza do exílio, somos sempre mais solidários, é uma constatação. Desaparecem as ideias pré-concebidas, os terríveis preconceitos, e a postura de “live and let live” começa a instalar-se mesmo em almas um pouco mesquinhas ou procedentes de países muito conservadores ou atrasados, como era o caso de Portugal naquela altura - e ainda hoje, em certa medida, arrisco dizer, mesmo que não seja “politicamente correcto”.
Para finalizar, e como dizia mais acima, não me sinto com coragem para terminar esta crónica no mesmo tom e ímpeto original, até porque não sou a mesma pessoa passados tantos anos, e certamente alguns detalhes perderam-se para sempre nas brumas da memória. Mas, deitá-la para o cesto dos papéis ou para o caixote do lixo digital, também me parece incorrecto, com pouca alma, e assim, resgatando-a, presto tributo a uma alma boa que se cruzou nos caminhos da minha vida, pois sentir gratidão é algo que nunca me faltou, felizmente.
Gracias, vida! Obrigado, universo! Thank you, nice people!