O rei do bosque

Everhard Hoepcke tinha onze anos quando a aviação aliada fustigou Dresden com uma descarga de bombas de fósforo tão brutal que deixou espantado o próprio Winston Churchill.

Nessa noite de 1944, como em muitos outros dias e noites, milhares de vidas humanas foram ceifadas. As frias estatísticas dão conta de um mero número com seis dígitos: 300.000! As ruas da sua cidade estavam pejadas de escombros de cadáveres, testemunhas mudas do horror desencadeado há quase cinco anos, e que mergulhou a velha Europa, supostamente civilizada e sábia, em mais um sangrento conflito, no espaço de pouco mais de duas décadas.

O menino Everhard já tinha idade suficiente para ter consciência do caos material e dos dramas humanos que se viviam à sua volta, mas havia um detalhe que o tocava particularmente: as árvores ardidas, calcinadas até à medula, reacendiam-se como velas macabras durante a noite, fazendo parte do ritual satânico do horror. Pela manhã, o jovem aproximava-se e presenciava, de olhos esbugalhados, e com o coraçãozito apertado pela dor, como aqueles seres verticais, outrora verdes, lindos e viçosos, morriam de pé, no meio de uma agonia fumegante, sem honra nem glória.

No meio de tanta destruição, de tanta dor e sofrimento, o jovem Everhard reparou que a este seres indefesos ninguém dispensava um pouco de carinho ou de atenção.

O fim da guerra encontrou os Hoepcke escondidos num frio e escuro sótão, tremendo de medo e de fome.

Numa manhã triste, da cor das cinzas das suas amadas árvores, chegou o mensageiro da desgraça, com uniforme militar, portador de uma missiva oficial com a mais terrível das notícias: o seu pai, um coronel de estirpe prussiana e desconfiado dos ideais nacional-socialistas, tinha sucumbido no gelado lamaçal da frente russa.

A família decide então mudar-se para a Baviera. Ali, o menino de Dresden voltou a encontrar árvores vivas, lindas e viçosas. No entanto, para o seu espírito inquieto, sensível e aventureiro, as árvores da linda Baviera – com as suas montanhas, lagos, florestas, cidades medievais e igrejas barrocas – não lhe eram suficientes. Foi então que ouviu falar de um país, a Suécia, onde havia ainda mais árvores, e onde os bosques se assemelhavam a um mar verde, imenso, a perder de vista.

Despede-se da sua mãe, Erika, e sai disparado para a fria e setentrional Escandinávia, levando apenas na bagagem o sonho de poder ver árvores vivas, lindas e viçosas, até ao infinito.

As prometidas árvores foram de facto encontradas, mas as rígidas leis suecas de imigração impediram o jovem alemão de deitar raízes à terra. Perante o desalento de um sonho que se desfazia em fumo, aceita a ideia, louca mas fantástica, de um compatriota seu: subirem a um barco em Génova, com direção à América do Sul, Rio de Janeiro ou Buenos Aires.

Vinte e um dias depois desembarcava na capital porteña, com vinte e dois anos, na companhia de uma velha Zundapp, muitos sonhos na alma e uma nota de cem marcos cosida ao bolso das calças. Desta vez não chegou sequer a despedir-se de mutti Erika.

«Haveria árvores na Argentina?», perguntava para si mesmo.

No porto de Buenos Aires informaram-no de que, daí em diante, se passaria a chamar Everardo, com direito a documento oficial atestando a sua nova identidade. Everardo achou que isso não era grave, desde que encontrasse árvores, muitas árvores.

Foi mandado, juntamente com outros alemães, para a província de Santa Fé. Disseram-lhe que seria vaqueiro, que alguns dias dormiria ao ar livre, tendo como travesseiro a sela do seu cavalo, e que tinha direito a uma ração diária de um quilo e meio de carne – um “pouco mais” que as oitenta gramas semanais do pós-guerra na Baviera – e que havia tantas vacas que lhe seria possível percorrer os três mil hectares da propriedade caminhando sobre o dorso dos animais. OK!, tudo bem, para começar até não estava mal, mas... e as árvores?

De peão passou rapidamente a capataz, e de capataz a encarregado da propriedade. Tinha aptidões mais que suficientes para singrar naquele meio rural e ganadeiro, mas Everardo Hoepke continuava a interessar-se mais por árvores do que por vacas... e decidiu trocar o seu nobre pingo pampeano pela sua velhinha e inquieta Zundapp.

Fez milhares de quilómetros pela imensidão alucinante das paisagens sempre tão diferentes e tão belas desta sua nova terra, percorrendo as províncias de Salta, Tucumán, Santiago del Estero, Córdoba e Buenos Aires. E foi aqui que ouviu falar de uma região chamada Patagónia, de um lugar muito belo chamado San Martín de los Andes, e de um lago com o nome de Lácar.

«Meine liebe mutti Erika, vou para a Patagónia, pois dizem que ali há árvores», escrevia ele à sua mãe, no Outono de 1962.

Entre o sonho e a realidade, salvo raras excepções, vai quase sempre uma grande distância, e desta vez a excepção também não quis deixar de marcar presença. Nessa região da chamada pré-cordilheira, salpicada de inúmeras esmeraldas e turquesas com a forma de lagos, bordejados com uma flora autóctone, riquíssima e imponente, como as lengas (Nothofagus pumilio), os coihue (Nothofagus dombeyi) ou os arrayanes (Luma apiculata), já se havia iniciado um processo de desertificação preocupante. O corte irracional dos milenares bosques austrais – existem ali árvores que já eram imponentes quando Colombo chegou à América -, conjugado com a exploração intensiva do solo para a criação de gado exclusivamente ovino, já deixara marcas indeléveis na paisagem.

Hoepcke soube então que se tinha finalmente dado o encontro com o seu tão sonhado destino, feito de muito verde, de árvores belas e viçosas... até ao infinito.

Amarrou então com uma pesada corrente a sua irrequieta Zundapp e decidiu que era hora de constituir família, prometendo a si mesmo que, no futuro, cada vez que abrisse uma janela em qualquer lugar do sul, os seus olhos veriam um mar verde, com aroma de clorofila.

«Meine liebe mutti Erika, quero conquistar o deserto», confessou ele pouco tempo depois, por carta, à mãe.

Em meados de 1977, o dono de uma propriedade ameaçada de desertificação, contacta um já bastante conhecido técnico florestal alemão, de nome Everardo, cuja fama se estendia então muito para além da área de influência de San Martín de los Andes. Hoepcke pede, a troco dos seus conhecimentos e da assessoria que ia prestar ao desesperado homem, cinquenta hectares para si, o que foi aceite de imediato.

Dezassete anos e quase dez mil hectares depois, o rapazinho de Dresden é um homem realizado. A par da sua obsessão em plantar, semear, transplantar e cuidar das mais variadas formas uns frágeis seres vegetais, foi desenvolvendo uma outra ideia não menos nobre: a necessidade de fixar as pessoas à terra, de dar-lhes condições de vida dignas, com a finalidade de que a passassem a amar e cuidar para sempre. Sempre desconfiou dos resultados que produzia um trabalhador contratado a prazo, à temporada, os chamados trabalhadores golondrinas (1). A sua opinião é muito clara: «O trabalhador tem que amar a terra, sentir que faz parte dela, fundir-se com ela, e por isso é imprescindível que se fixe ao lugar com a sua família. Se é argentino ou chileno, não me importa!»

Esta postura é, seguramente, um reflexo positivo da sua amarga experiência naquela longínqua e fria Escandinávia, onde lhe foi negado o direito de lançar raízes. Hoje, na Estância Santa Lucia, a sua amada e mil vezes sonhada propriedade, existem onze casas para os operários e respectivas famílias, sem ninguém se importar se nasceu em território argentino, ou do outro lado da cordilheira dos Andes. Existe ainda um parque infantil e uma escola primária, ambas iniciativas plantadas por Everardo, para que as raízes lançadas pelas pessoas frutifiquem um dia.

No seu viveiro florestal, para continuar replantando árvores e exemplos de vida, estão mais de três milhões (!) de frágeis plantinhas, que nunca conhecerão a cor dos pesticidas. «Aqui só usamos processos naturais, porque eu sou um ecologista tonto», afirma com convicção, divertido. «Sei que há produtos químicos para matar as ervas daninhas, mas a mim ainda ninguém me explicou o que é que matam mais, para além dessas ervas. A terra está cheia de bichitos, de coisas que desconhecemos e que também são necessárias às árvores. Se há alguma erva que incomoda, pois bem, tiramo-la com as mãos», remata peremptório.

Ainda hoje, neste Verão patagónico de 1997, em que tenho o enorme privilégio de conhecer pessoalmente este ser humano tão especial, na sua confortável casa de madeira, edificada há menos de uma década no topo de uma colina que domina toda a paisagem circundante, o jantar continua a ser romanticamente servido à luz das velas, visto não existir, por opção, luz eléctrica.

Como corolário feliz desta história real, e do cimo desta bela encosta, Don Everardo Hoepcke observa o conquistado deserto, um vasto oceano verde de árvores bem vivas, lindas e viçosas, as mesmas com que sonhava há meio século na sua calcinada infância de Dresden.

(1) andorinhas, em castelhano, por analogia com estas aves migradoras.

Don Everardo, ilustração artística realizada com IA, mas baseada em imagens reais / 2026 by © Jaime Alves


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