Eram dez da manhã e já fazia um calor infernal, para não variar. Os Unimog(1) e as Berliet(2) cruzavam, para cima e para baixo, a avenida do Hotel Zambeze, deixando no ar uma sufocante nuvem de poeira. Nas ruas empoeiradas da cidade de Tete este era, invariavelmente, o cenário de far-west que se repetia dia após dia, e onde apenas nós, os putos, tínhamos imaginação para quebrar a rotina e transformar, como todas as outras crianças do mundo, este planeta numa bola colorida, por muito adversa que seja a realidade.
Entre acordes de guitarra nas escadas de algum prédio para fugir ao calor, ou grandes bicicletadas pela cidade, assim passávamos os dias de férias, antes da invenção dos shoppings para deambular, da televisão para devorar ou da net para navegar.
O lugar mais aprazível da cidade era junto ao rio, o majestoso Zambeze, que já alguma vez vira passar Capelo e Ivens e também Livingstone. Nesse momento, a grande atracção da zona ribeirinha da cidade era a construção da ponte, obra do incontornável Engº Edgar Cardoso, e que iria permitir cruzar com rapidez e segurança o caudaloso rio; a sua travessia era feita, até então, num velho e ferrugento batelão. Com a construção da moderna obra de engenharia civil, iria perder-se para sempre mais um detalhe romântico em que África sempre foi pródiga, antes da chegada do “progresso”. Este ajudou a destruir muitos valores autóctones, e também um imaginário riquíssimo feito de ingredientes raros nos nossos tempos apressados, como a aventura e o romantismo.
Numa de muitas incursões às margens do rio, vejo um indivíduo magro, alto, de cabelo aloirado e que, de máquina fotográfica em punho, fazia alguns retratos de uma cena que, de tão banal para nós, até nos passava despercebida: um corte de cabelo, a preceito, debaixo de uma mangueira. Também existe na versão “debaixo do cajueiro”! O cliente estava sentado em cima de uma lata vazia de petróleo, de vinte litros, e olhava fixamente para diante, na direcção do rio, com um ar sério e pose solene, como convém a tão importante ritual. Pendurado de um ramo baixo da velha mangueira, bamboleava ao sabor da brisa um roufenho rádio de pilhas, que se esganiçava para fazer sair os sons de uma alegre marrabenta(3), enquanto à sua volta um bando de crianças se agitava freneticamente ao som do trepidante ritmo.
No regresso a casa, apesar de ter o corpo cansado e a alma cheia de muita folia, não podia deixar de pensar naquele personagem alto, magro e de calções de káki(4), de pernas magras mas bem musculadas, nem na sua Asahi Pentax Spotmatic(5). Sentia que também eu, algum dia, gostaria de ter aquele ar descontraído e desalinhado, de aventureiro vagamundo, sem compromissos nem horários.
Passaram-se vários dias de alegre e despreocupado viver, inventando e reinventando brincadeiras, novas e antigas, até que, casual e inesperadamente, quase tropeço com aquele gigante loiro no salão de jogos do colégio religioso onde nos juntávamos ao começo da tarde; praticávamos o saudável hábito de nos pirarmos de casa sem dormir a sesta, apesar dos cerca de quarenta graus – e mais! – de temperatura que habitualmente se faziam sentir àquela hora, na que era justamente considerada a cidade mais quente de Moçambique. Assim de perto, parecia ainda mais alto e mais magro, e as suas pernas, secas e magras, ainda mais musculadas. Embora fosse de pele muito clara, como atributo genético da sua raça, via-se que estava bastante queimado por aquele impiedoso sol africano.
Quando cheguei, jogava ping-pong com outros miúdos, e tentava comunicar-se sem muito sucesso, devido ao idioma. Assim que a oportunidade se apresentou, da vaidade dos meus quinze anos e com essa necessidade de afirmação que todos experimentamos nessa fase da vida, puxei dos meus galões de melhor aluno de francês, e foi um ver-se-te-avias. Em breve tínhamos estabelecido um diálogo iniciático que o resto da malta não compreendia nem lhe interessava, continuando no seu jogo, em grande algazarra.
A conversa desfilou, a partir de França, pelo sul da Europa mediterrânica, Turquia, todo o Médio-Oriente, fomos até à Índia num ápice, e aí apanhámos um velho e ferrugento tramp-steamer(6) com destino a Mombaça. Daqui até à “Terra da Boa Gente” foi rápido e bom caminho, se exceptuarmos um breve encontro com um irritado kambaco(7) nas planícies do Serenguetti, e uma crise de paludismo na ex-Rodésia. Falámos de mapas e de utensílios de viagem, de livros e de heróis, de viajantes famosos e também de piratas, de meios de transportes não convencionais e sobretudo de truques e artimanhas para poder driblar um tipo de sociedade que está armada como uma teia gigante, permitindo a muito poucos escapar.
Não sei qual dos dois estava mais fascinado: se eu, tendo ali à minha frente um herói de carne e osso, a quem faltava “apenas” percorrer a América do Sul para ter «le monde dans sa poche» - isto para utilizar uma expressão sua – se este afável e comunicativo gigante, que entendia com dificuldade o interesse e o fascínio do puto que tinha à sua frente, numa pequena cidade poeirenta do interior de África, sem televisão nem jornais diários, que se expressava correctamente na sua língua e tratava o mundo por tu!
Como não há bela sem senão, até tremi quando me apercebi das horas. A noite africana tinha chegado há mais de duas horas, e eu já devia estar sentado à mesa com a família para jantar, com a cara e as mãos lavadas, e estava ali em estado de êxtase, falando e ouvindo falar do mundo com o mesmo à-vontade com que falamos da nossa cidade, do nosso bairro ou da nossa rua. Estava lixado!
(1) Unimog – designação dada a viatura ligeira militar, de marca alemã, muito usada pelo exército português em África
(2) Berliet – marca de viatura pesada (camião) militar, de origem francesa, montada em Portugal para a guerra colonial
(3) Marrabenta – nome de dança moçambicana muito ritmada e alegre, verdadeiro ex-libris cultural daquele país
(4) Káki – nome dado a um tipo de sarja de algodão, muito usado em África e especialmente identificado pela sua cor bege / castanho-claro / côr-da-terra
(5) Asahi Pentax Spotmatic – passe a publicidade à marca, este modelo do conhecido fabricante japonês era um verdadeiro objecto-de-desejo dos fotógrafos amadores do começo dos anos 70
(6) Tramp-steamer – termo com que se denominam alguns pequenos e velhos cargueiros, não pertencentes a nenhuma companhia de navegação, e que viajam de porto em porto à procura de alguma carga ocasional para levar para onde quer que seja
(7) Kambaco – designação dada em África aos velhos elefantes que foram expulsos da manada pelos machos mais jovens, e que são animais solitários e geralmente perigosos.