A gaivota e a bolacha Maria

Esta fotografia tem mais de vinte anos.

Foi captada durante uma excursão de barco pelo Lago Nahuel Huapi, na Patagónia argentina, com partida de Bariloche. Na época utilizava uma pequena Fuji FinePix, a primeira máquina digital que comprei na vida. Tinha apenas 2 megapixels, embora a publicidade da época falasse em 4 megapixels interpolados, uma expressão que hoje quase soa a arqueologia digital.

Eu estava virado para a popa do barco, observando a paisagem e fazendo algumas fotografias. Por qualquer motivo, girei o corpo e olhei para a proa. Tudo aconteceu numa fracção de segundo! Havia várias gaivotas acompanhando o barco, aproveitando as correntes de ar e a generosidade dos passageiros. Mas precisamente no instante em que olhei, uma delas acabava de arrancar uma bolacha Maria da mão de alguém.

Vi apenas o final da operação. A ave já se afastava levando o troféu firmemente preso na ponta do bico.

Nem tive tempo para pensar. O dedo carregou no disparador quase por instinto, muito antes de o cérebro terminar de processar o que estava a acontecer.

Foi só mais tarde, ao rever a fotografia, que percebi melhor a cena. Havia um passageiro que se vinha divertindo a estender o braço com bolachas para desafiar as gaivotas. As aves já pareciam conhecer perfeitamente o jogo.

Lembrei-me imediatamente das famosas experiências de Pavlov. Bastava aparecer uma mão estendida para que as gaivotas associassem o gesto à possibilidade de comida. Depois de centenas ou milhares de repetições, o condicionamento estava feito. Talvez não salivassem como os cães de Pavlov, mas certamente já sabiam que um barco cheio de turistas podia ser uma excelente oportunidade para encher o papo.

Hoje esta fotografia pode não impressionar ninguém pela qualidade técnica. Foi feita com uma máquina modesta, numa época em que a fotografia digital ainda dava os primeiros passos. O ficheiro original tinha uma resolução que muitos telemóveis actuais ultrapassam sem esforço. Mas continuo a gostar dela. Não apenas pela gaivota ou por ver uma bolacha Maria voar no bico de uma gaivota pelos céus da Patagónia argentina, num dos lagos mais bonitos daquela região do mundo. Gosto dela porque me recorda um instante irrepetível. Um daqueles momentos que duram menos de um segundo e que desaparecem para sempre se o fotógrafo estiver distraído ou hesitar um segundo.

Também me recorda uma época em que viajar era um pouco diferente, em que dois megapixels pareciam uma revolução tecnológica e em que eu ainda estava a descobrir as possibilidades daquele estranho mundo chamado fotografia digital, para o qual olhava com bastante desconfiança, diga-se em abono da verdade.

Entre montanhas, lagos, glaciares e paisagens extraordinárias da Patagónia, uma gaivota ladra, uma bolacha Maria e um reflexo suficientemente rápido para congelar a cena, permitem-me, ainda hoje e para sempre, recordar com emoção e uma lágrima no canto do olho uma das tantas viagens que fiz pelas terras do sul do mundo.

Valeu bem a pena toda aquela longa viagem até terras austrais, e, como sempre, as melhores histórias de viagem são mesmo as mais improváveis.

PS: Esta foto faz parte da Galeria Natureza neste blog.

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