Navegação de cabotagem

Há mais de vinte anos, um amigo emprestou-me um livro do Jorge Amado que se chama Navegação de Cabotagem. Ali transcorrem uma sucessão de factos, episódios, relatos, histórias, pequenas e grandes, sem qualquer ordem cronológica ou de importância social, política, literária ou outra. O autor, com uma longa e diversificada vida, achou por bem fazer uma espécie de blog literário, com 600 páginas, ao sabor das suas memórias, onde vai juntando pequenas pedrinhas com as quais nós, interessados leitores, podemos ver mais claramente como foi sendo construído o castelo da vida do grande escrito baiano.

Este blog que aqui e agora inicio, em Junho de 2026, nas imediações da cidade de Setúbal, é uma espécie de humilde homenagem ao prolífico autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tenda dos Milagres, Tieta do Agreste, Gabriela, Cravo e Canela e Capitães da Areia, este último proibido em Portugal pela ditadura de Salazar, e o que o meu querido pai levou, escondido - entre outras obras proibidas de diversos autores - para Moçambique em 1953.

Este não é um blog para relatar acontecimentos. Os acontecimentos são apenas o ponto de partida. O que me interessa é explorar o eco que deixam dentro de mim, as memórias que despertam, as perguntas que levantam e as reflexões que provocam.

Escrevo porque gosto de observar o mundo com vagar, numa época em que a maioria das pessoas parece ter pressa de chegar a todo o lado.

E escrevo também por outra razão. Porque acredito que existem por aí outras pessoas que, tal como eu, continuam a sentir curiosidade pelas pequenas coisas, pelos caminhos secundários, pelas perguntas e pelas histórias humanas que raramente cabem nas manchetes.

Este texto fundacional não contém verdades acabadas, nem é nenhum manifesto ideológico. Apresento-o como uma direção, uma espécie de bússola, usando o magnetismo que aponta ao meu norte. E uma bússola não obriga ninguém a seguir um caminho exato, apenas indica o rumo geral.

Talvez nunca nos encontremos. Mas cada texto é uma forma de lançar um sinal, e de descobrir quem mais navega, devagar, por estas águas mansas.

Navegação de cabotagem: transporte marítimo ou fluvial, de mercadorias e/ou passageiros, entre portos de um mesmo país, sem perder a costa de vista.

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