Primeiras notas de viagem

O que é viajar? 

Viajar será apenas mudar de lugar?

Uma deslocação entre a nossa casa e um hotel “tudo incluído”, do qual saímos apenas para atravessar a avenida marginal e passar o dia na praia entre coqueiros, pode realmente chamar-se viajar? Talvez sim. Talvez não. Talvez dependa daquilo que procuramos quando partimos.

E um elegante cruzeiro pelo Mediterrâneo, parando brevemente em meia dúzia de portos, será a mesma coisa que percorrer o mundo de mochila às costas, de bicicleta, de mota, de carro velho ou apenas à boleia?

Ao longo da vida, estas perguntas acompanharam-me muitas vezes. Nem sempre provocam respostas tranquilas. Há quem confunda férias com viagem, deslocação com descoberta, consumo de lugares com verdadeira experiência humana.

Para mim, viajar nunca foi apenas mudar de cenário. Foi aprender a escutar outras formas de viver, partilhar tempo com pessoas diferentes, descobrir novos hábitos, novas palavras, novos silêncios. Foi aceitar o desconforto, a incerteza e, muitas vezes, a sensação maravilhosa de não pertencer completamente a lado nenhum — e um pouco a todos os lugares.

Talvez por isso os verdadeiros viajantes raramente regressem exactamente iguais.

Se gostas de reflectir sobre estas questões, deixa o teu comentário. Os viajantes mais interessantes que conheci eram quase sempre pessoas abertas ao diálogo, à diferença e à partilha de ideias.

Te leio.




Mário Quintana (1906–1994), poeta, tradutor e cronista brasileiro, deixou uma das obras mais sensíveis e humanistas da literatura em língua portuguesa.

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