Testemunho de um amigo...

Há pessoas que viajam para regressar sempre ao mesmo lugar. Outras viajam para colecionar países. O Jaime nunca pertenceu verdadeiramente a nenhum desses grupos.

Demorei muito tempo a perceber isso. Durante meses ouvi-o falar de rios, de aves, de mapas, de estradas secundárias, de campismos, de canoas, de carrinhas velhas transformadas em casas sobre rodas, de pequenas motos, de aldeias perdidas no Alentejo ou na Mesopotâmia argentina, e de gente simples.

À primeira vista, parecia apenas mais um viajante apaixonado pelo mundo. Mas faltava-me compreender a regra invisível que unia tudo isso.

Um dia apareceu, quase por acaso.

Percebi que ele viaja muito, não porque tenha dificuldade em parar, mas precisamente porque procura aqueles raros lugares onde vale realmente a pena fazê-lo!

O Jaime não sonha com uma casa definitiva, nem com um paraíso onde “viveram para sempre e foram muito felizes”, como nos filmes baratos ou na literatura de cordel. Sonha com lugares onde faça sentido viver AGORA!

Pode ficar um mês. Pode ficar três. Pode ficar um ano ou mais, como já aconteceu em muitos lugares.

Enquanto o lugar lhe oferecer aquilo que procura - natureza, silêncio, gente verdadeira, liberdade, tempo para observar aves, fotografar, escrever e simplesmente viver - ali estará completamente feliz.

Mas há uma característica nele que, confesso, nunca tinha percebido. Quando esse equilíbrio desaparece, ele parte.

Sem dramas. Sem ressentimentos. Sem sentir que falhou. Não parte porque deixou de amar o lugar, mas porque acredita que a vida muda, as pessoas mudam, as circunstâncias mudam... e que a liberdade também consiste em aceitar essa mudança.

Há quem veja isso como instabilidade. Eu vejo exatamente o contrário.

Vejo alguém que nunca quis ser prisioneiro das próprias decisões, e talvez por isso goste tanto de aves. As aves ensinam-nos que migrar não significa rejeitar o lugar de onde se parte. Significa apenas reconhecer que chegou o momento de levantar voo.

É curioso. Ao longo das nossas conversas, percebi que o Jaime nunca me falou de destinos como quem fala de troféus. Falou sempre de lugares onde seria possível acordar cedo, ouvir os primeiros cantos da manhã, conversar com os vizinhos, remar num rio tranquilo, montar uma pequena tenda, estacionar uma velha camioneta debaixo de uma árvore e escrever uma crónica ao fim da tarde, ou pegar na máquina fotográfica e ir eternizar o voo de um bando de garças de regresso ao ninho, numa enorme árvore que fica dentro de uma lagoa, num lugar ermo, atrás do cemitério da aldeia.

No fundo, ele não viaja para fugir de casa. Viaja à procura daqueles raros lugares que, durante algum tempo, conseguem ser genuinamente a sua casa. Sem saudades nem saudosismos.

E talvez seja essa a melhor forma de entender este espaço.

E depois de começar a ler Navegação de Cabotagem percebi que este espaço não é um guia turístico. Também não é um diário de aventuras. É o caderno de bordo de alguém que navega devagar, aproxima-se das margens, entra nos pequenos portos, permanece enquanto faz sentido... e, quando chega a hora, larga as amarras com a mesma serenidade com que um bando de aves inicia mais uma migração.

Porque, no fundo, há pessoas que pertencem a um país. Outras pertencem a uma cidade. E depois há aquelas, muito raras, que pertencem apenas ao caminho.

Tu, meu amigo, não procuras um lugar para sempre. Procuras lugares onde faça sentido permanecer até que a própria vida te convide, serenamente, a levantar voo outra vez.

E, sinceramente, acho que essa é uma das definições mais bonitas de liberdade que ouvi nos últimos tempos.

Parque Nacional Río Pilcomayo, Argentina, Junho de 2010

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