Motard suíço no Chiveve

Agosto de 1975. Os “camaradas” marxistas-leninistas moçambicanos, com Samora Machel à cabeça, já se encontravam instalados nos confortáveis cadeirões do poder em Moçambique. O rol de arbitrariedades, grandes e pequenas, que se vivia no dia-a-dia era imenso, inesgotável, delirante. A grande maioria desses atropelos e incongruências de vária ordem eram constituídos por pequenos abusos, ridículos e mesquinhos, e que nada tinham a ver com o marxismo-leninismo, com a luta de classes ou com a cor da pele de cada um. “Simplesmente” brotavam férteis e delirantes das cabeças – a maioria delas tão analfabetas e incultas como a do próprio camarada-presidente – que estavam encarregadas de conduzir o povo moçambicano – “unido desde o Rovuma ao Maputo”, como dizia o estafado slogan do momento – a “um alvorecer de progresso e justiça”, norteado pelo redutor “ideal comunista”.

Tinha começado a trabalhar há poucos meses na “East African Shipping Agency”, uma das maiores agências de navegação da cidade da Beira. A sede da empresa ficava na baixa da cidade – embora a Beira não tivesse parte alta, visto ser uma cidade construída em cima de um pântano – a pouca distância do porto, e em frente a um mítico riacho – fedorento na baixa-mar – chamado Chiveve. Era certo e sabido que, todo aquele que bebesse da sua água, regressaria um dia, inevitavelmente, a esta bela cidade.

Numa radiosa manhã de Junho, com acácias floridas e outros exuberantes apelos à vontade de viver em que o trópico é fértil, apresenta-se no escritório da East African Shipping um marinheiro suiço-italiano, de nome Zucollotto, que fazia parte da tripulação de um barco belga do qual éramos agentes. O sujeito estava bastante nervoso pois, segundo ele, pela primeira vez na sua já longa vida como vagamundo dos mares, não tinha conseguido obter, das autoridades alfandegárias, um simples salvo-conduto, temporário, para poder baixar do barco, para terra firme, a sua potente Honda 750. Este era um procedimento normal e simples em qualquer porto, e Zucollotto viajava sempre acompanhado da sua fiel montada, podendo assim conhecer algo mais de cada país, durante o tempo que o barco passava atracado em cada novo porto.

- Calma, amigo! Não deve ser nada que não se resolva com dois dedos de conversa e uma rodada de Manicas – a famosa cerveja da Beira - disse, convicto, o meu camarada-chefe.

Como faltavam poucos minutos para a hora do almoço, sugeri-lhe que fôssemos comer ali perto, ao “Grego”. Teria assim possibilidade de se acalmar, e eu certamente teria a oportunidade de encher o papo com algumas deliciosas histórias d’andarilho.

Fomos então “mandar abaixo” uns divinos camarões panados, ali mesmo ao virar da esquina, num magnífico restaurante de um grego-luso-moçambicano. Este, com um nome impronunciável, capaz de deixar qualquer um “grego”, era mais conhecido entre os amigos e clientes apenas por... “o Grego”.

Este afável descendente de um nobre e sábio povo tinha, ele e a sua família, uma fascinante história de vida, cheia de peripécias e aventuras, iniciada pelo seu avô há quase um século. Percorreram meio mundo, de porto em porto, antes de fixarem amarras ali, entre portugueses e moçambicanos, pretos e brancos, mesmo em frente ao enfeitiçado Chiveve.

O primeiro quarto de hora da refeição decorreu quase em silêncio. O suíço estava deslumbrado com os camarões do “Grego” – e esfomeado, pelos vistos! – e quase comia os dedos, de tanto os chupar. Gosto de comer com as mãos e de ver as pessoas comerem e chuparem os dedos. Em África, no meio dos africanos, pretos e brancos, sempre vi as pessoas felizes chuparem os dedos. Para mim é um desses gestos saudavelmente “primitivos” que, com as regras das “boas maneiras”, – inventadas apenas para atrapalhar a nossa existência - do “socialmente correcto”, já quase não sabemos fazer. E, se o fizermos fora do âmbito restrito da nossa intimidade e dos que nos são mais chegados, certamente provocará olhares reprovadores e enjoados por parte de “gente bem”. Por outro lado, para além do prazer que evidencia o acto de chupar os dedos – há alguma criança que não chupe ou lamba os dedos, com evidente satisfação, quando os tem besuntados de chocolate, por exemplo? – parece-me ser também uma muda mas sentida homenagem a alguém que, para nosso deleite, com sabedoria e amor, nos tenha confeccionado um delicioso manjar.

A única exclamação que, de vez em quando, o suíço-italiano deixava escapar era “stupendo”! Via-se que, lá por onde costumava navegar, mundo afora, não havia camarões como os de Moçambique, temperados com muito limão, muito piri-piri, muita sabedoria e muito carinho, pelo “Grego” das margens do Chiveve. E, como dia de convidar um amigo para comer connosco – mesmo que desconhecido - era dia de festa na “terra-da-boa-gente”, decidi regar o divino repasto com vinho verde da Metrópole. Estupidamente gelado, como convém em terra de muito calor e humidade, como era o caso daquela bela e amada cidade às margens do Índico.

Eu, apesar de adorar aquele pitéu de excelência, desta vez tinha mais fome de histórias andarilhas, de travessias fantásticas, com piratas e tesouros se possível, confeccionadas com os ingredientes de que são feitas as grandes aventuras: inconformismo, determinação, saudável loucura, coragem, ânsia de liberdade... e grandes espaços!

Como sobremesa, o marinheiro-motard-vagamundo aceitou a sugestão de uma excelsa mousse-de-manga, cuja receita “o Grego” um dia me ofereceu, e que conservo carinhosamente até hoje. Essa receita já fez muita gente feliz, em lugares tão díspares como a Guiné-Bissau, a Argentina, Cabo Verde, o Brasil ou o Panamá.

Deu-se então lugar à fase final da refeição – a que eu chamo “jiboiar” – acompanhada de “Johnny Walker”, e ao som melodioso dos relatos aventureiros deste suíço-italiano, viajante, andarilho dos quatro costados e cidadão do mundo a tempo completo.

- Nunca fui bom aluno – assim começou Zucollotto o relato das suas andarilhanças. – Na escola apenas me interessava por História e Geografia. Queria saber tudo sobre povos e lugares. Não cheguei sequer a terminar o liceu. Então o meu pai mandou-me trabalhar e eu arranjei emprego, aos dezasseis anos, como varredor de uma oficina de motas em Lugano, onde vivia, mesmo em frente ao lago. Gostava de ir para as margens do lago e imaginar como seria o mar. Nunca tinha visto o mar mas sentia que seria um amor à primeira vista. Aos dezoito anos tirei a carta de moto, comprei uma Guzzi em quarta mão com umas magras poupanças, e fiz a minha primeira viagem em duas rodas. Sabe para onde fui?

- Não, nem ideia – disse, absorvido que nem uma esponja.

- Para Génova! – exclamou, com uma ponta de exaltação na voz. – Primeiro por ser um porto mítico, impregnado de história, com uma longa tradição marinheira e de comércio com o resto do mundo. Basta referir Marco Polo e Cristóvão Colombo. Em segundo lugar porque, de Lugano a Génova, são menos de duzentos quilómetros. A Guzzi portou-se lindamente. O fascínio pela descoberta do mundo, em duas rodas, começou nessa viagem. Desde então nunca mais parei! – terminou, eufórico, o meu simpático e expressivo interlocutor.

- Bravo! – exclamei eu, entusiasmado com o seu relato, feito com tanta e tão genuína exaltação.

- Só não entendo porque é que estes tipos não me deixam tirar a mota do barco. Ainda na semana passada, em Dar-es-Salam, não tive nenhum problema. Nem em qualquer outro porto de África por onde tenha passado.

- Calma, amigo! Estamos num Moçambique “revolucionário”, entre “camaradas” muito zelosos. Amanhã de manhã, bem cedo, encontramo-nos no nosso escritório do cais. Não deve ser nada que não se resolva com dois dedos de conversa, um par de cervejas e algum “saguate”(1).


1 - Saguate: gorjeta, gratificação, recompensa.


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