Nas areias do Nha’mapadza
Eram tempos de paz, antes da chegada das guerras. Jogávamos juntos à bola – brancos e pretos – ora no campo da bola, lá para trás de uns cajueiros enormes, ora na rua principal, no meio de seculares acácias. Também caçávamos passarinhos, quer com espingardas de pressão de ar, quer com certeiras fisgas feitas de câmara de ar de camião. Além disso, subíamos às árvores, jogávamos n’sua(1) de cócoras, horas a fio, e íamos malandrar e pescar para o rio.
Chamava-se Nha’mapadza o rio que passava no Maríngué. Nunca foi um grande rio, nunca virá nas enciclopédias geográficas, mas era um dos nossos terreiros de folia favoritos, onde brincávamos felizes, alheios a um tempo apocalíptico que, infelizmente um dia, ali haveria de chegar. Um tempo e uma terra – Maringué – em que não ficaria pedra-sobre-pedra, um lugar de triste memória no futuro. Uma espécie de Huambo em terras do Índico, num contexto de guerra civil em tudo semelhante, embora com uma catástrofe de menores proporções.
Voltando ao nosso rio feliz, havia, aqui e ali, alguns poços artesanais feitos na areia, com manilhas de cimento, para extrair, a balde, a água que era transportada em bidões, de jeep, até à povoação.
Na rede de carreiros que levavam ao rio, por meio de caniçais enormes e frescos, cruzei-me muitas vezes com a Rosinha. Ia quase sempre a esgalhar, na minha “ginga” vermelha e branca, derrapando e acelerando como um louco. Devido à exiguidade do caminho, a sensação de velocidade era ainda maior, com a folhagem de algumas canas a provocar, por vezes, alguns rasgões na minha pele. Há que dizer que a adrenalina era debitada em doses duplas, visto que a minha “ginga” só tinha travões na roda traseira. Isto porque o meu pai – experiente ciclista de outros tempos – me tinha dito que, naquele tipo de piso, com muita areia e pedra solta, o travão da frente só serviria para me espalhar ao comprido.
A Rosinha era uma menina adolescente, da minha idade, com uma sedosa pele cor de chocolate, muito doce. Tinha uns olhos enormes e lindos, muito expressivos, e um sorriso matreiro, quase sensual, do tamanho de África. E eu tinha um fraquinho ingénuo, inocente mas intenso, por ela.
Como era muito gulosa, de vez em quando oferecia-lhe algum caramelo, que ela chupava de forma ruidosa, sorvida, – como quem chupa cana-doce – fazendo gulosos ruídos com os lábios borbulhantes de saliva. Dizia-me então que aqueles caramelos eram melhores que os swit(2) de açúcar, às risquinhas vermelhas, verdes ou azuis, que ela costumava comprar na loja do mesungo(3) Marques, quando lá ia vender milho ou mapira(4). E eu divertia-me, feliz, vendo como um simples caramelo fazia aquela menina negra ainda mais feliz e risonha.
Para retribuir os gestos de amizade que eu lhe dispensava, de vez em quando a Rosinha obsequiava-me com um par de lindas maçarocas, tenrinhas, que eu levava para casa para preparar à minha maneira. Uma era apenas cozidas em água e sal, e a outra, assim que houvesse oportunidade, seria posta em cima de umas brasas, libertando aquele delicioso e inconfundível cheirinho a milho assado. Assim que estivesse bem morena, era abundantemente besuntada com manteiga, e comida com a sofreguidão com que comemos aquilo que amamos.
De longe a longe, eu e os meus companheiritos de aventura – brancos e pretos – arrastávamo-nos em silêncio por entre o capim, as canas e os juncos da beira-rio, para espreitar as mulheres que ali se iam banhar. Geralmente tínhamos que ficar imóveis durante horas, pois a ida ao rio, por parte das mulheres africanas, é um ritual feito de várias tarefas. Em primeiro lugar lavam as suas vistosas capulanas, ensaboando-as, esfregando e batendo com força contra uma pedra grande e lisa; depois lavam-se elas, aproveitando para dar banho aos filhos mais pequenos; e, finalmente, enchiam as cabaças com água – de um buraco recente feito na areia, para garantir a pureza da mesma – só partindo, em grupo, conforme chegaram, quando todas tivessem terminado as respectivas tarefas. Todo este ritual, com uma forte componente social, é acompanhado de muita conversa, cânticos vários e risos à mistura. Alegremente e sem pressas. Porque, se há riquezas que sobrem em África, são o tempo e o riso.
Certo dia, durante as férias grandes, em mais um raid de “ginga” até ao Nhamapadza, de fisga à cinta, choco com a Rosinha à saída de uma curva apertada, para a esquerda. Bicicleta para um lado, eu para o outro, “ambos os três” no meio do chão. A atropelada Rosinha tinha partido a cabaça da água que levava à cabeça, mas ria-se que nem uma perdida. Eu, encabulado, com um forte sentimento de culpa, não sabia que dizer ou fazer.
- Desculpa, Rosinha!
- No tem probrema! – exclamou, rindo com gosto, no seu português acrioulado, delicioso.
- Jura mesmo? – perguntava eu, ainda nervoso.
- Memo! Memo! – enfatizava ela.
A Rosinha levantou-se então, primeiro que eu, tomando conta da situação, afastou os cacos da cabaça para fora do carreiro, ajeitou a capulana e estendeu-me a mão, ajudando-me a levantar. Tinha uma mão e um joelho esfolados, mas estava inteiro. A dor maior que sentia era na alma. Tinha acabado de atropelar uma pessoa por quem sentia tanta estima e carinho e, para além disso, acabava de lhe partir a cabaça da água, que tanta falta lhe fazia.
Passaram-se alguns instantes sem que as nossas mãos se descolassem. Olhei então para dentro da vertigem daqueles olhos negros, lindos e doces, e lembrei-me então que, apesar de nos conhecermos há muitos anos, nunca nos tínhamos tocado. Sentia, pela proximidade, o calor do seu corpo firme. As nossas mãos transpiravam.
- Se tivesse um caramelo, dava-te! – exclamei, tentando recompor-me daquela embaraçosa situação, ao mesmo tempo que largava a mão dela.
- Xiii!, no tem probrema! Mangwana(5), outro dia, dá! – disse, com um sorriso matreiro.
Então, de forma decidida, a Rosa pegou de novo na minha mão, conduziu-me para o meio de uma clareira no meio do capim e, deixando cair a sua vistosa capulana amarela, disse com naturalidade:
- Tende, minino! Nafuna kudabera!(6)
Foi bonito! Um pouco desajeitado pela minha imperícia de menino adolescente, branco e virgem, mas compensado pela experiência e pela fogosidade daquela linda menina africana, cor de chocolate na pele.
Foi mesmo muito bonito. Foi num tempo feliz, de paz, antes da chegada das guerras...
1) n’sua – Jogo muito popular em muitas partes de África, cujo “tabuleiro” consiste em quatro fiadas de buracos no chão, cheios de pedrinhas, e jogado por dois jogadores.
2) swit – Do inglês sweet, doce, rebuçado.Em Moçambique são muitas as palavras adoptadas da língua inglesa, devido à influência da proximidade das ex-colónias britânicas.
3) mesungo – homem branco
4) mapira – Sorgo
5) mangwana – amanhã
6) Tende, minino! Nafuna kudabera! – Vamos, menino! Quero foder!