O cartaxo e o começo de uma paixão

Esta fotografia foi captada em Maio de 1993, na Lagoa de Santo André, mas a sua história começou três anos antes, a milhares de quilómetros dali.

Em 1990 encontrava-me na Guiné-Bissau, onde desempenhava funções como coordenador da AMI – Assistência Médica Internacional. Um dia bateu-me à porta um homem da minha idade, portador de uma carta da própria AMI de Lisboa. Nela pedia-se que, se possível, eu lhe disponibilizasse alojamento durante alguns dias.

Chamava-se António Araújo. Entre os amigos e colegas era conhecido por Kaiser.

Viria a descobrir rapidamente que era biólogo e que se encontrava na Guiné para realizar um levantamento das aves da Lagoa da Cufada, um dos mais importantes ecossistemas do país. O objectivo era reunir informação científica que pudesse contribuir para a criação de uma área protegida. Décadas mais tarde, as Lagoas da Cufada tornar-se-iam efectivamente Parque Nacional naquela jovem nação africana de língua oficial portuguesa.

Durante as cerca de duas semanas em que ficou alojado em minha casa, tive pela primeira vez contacto com um verdadeiro guia de identificação de aves. Era um guia em francês dedicado às aves da costa ocidental africana. Folheei aquelas páginas com fascínio, mas também com espanto. Parecia-me impossível que alguém conseguisse conhecer tantas espécies, decorar tantos nomes, distinguir tantas diferenças subtis entre aves aparentemente semelhantes.

Naquela altura eu ainda pouco sabia de taxonomia, famílias, géneros ou espécies, apenas tinha vagas ideias dos conhecimentos aprendidos nos bancos do liceu em Moçambique. Via, deslumbrado, um universo novo a abrir-se diante dos meus olhos.

Antes de regressar a Portugal, o Kaiser deixou-me um pequeno livro de iniciação à observação de aves destinado às escolas primárias. Era um livro simples, mas suficiente para despertar uma curiosidade que nunca mais me abandonaria.

De volta a Portugal, comprei a minha primeira grande teleobjectiva: uma Tamron catadióptrica de 500 mm, pouco luminosa, mas que para mim representava uma janela aberta para um mundo novo. Montada numa Nikon FM e alimentada por modestos rolos de 400 ASA, acompanhou-me em muitas saídas de campo. Foi com esse equipamento que fotografei este cartaxo (𝑆𝑎𝑥𝑖𝑐𝑜𝑙𝑎 𝑟𝑢𝑏𝑖𝑐𝑜𝑙𝑎), ao final da tarde, junto à Lagoa de Santo André, na fabulosa costa alentejana. Na época, vários biólogos utilizavam aquela zona como base para observações e campanhas de anilhagem.

Havia, no entanto, um pequeno problema. O cartaxo já aparecera várias vezes por aqueles dias, sempre desconfiado, sempre pronto a desaparecer ao menor movimento. Eu encontrava-me junto da minha velha Ford Transit, adaptada para as escapadelas de campo, onde tinha cama, fogão e tudo o que precisava para passar alguns dias em contacto com a natureza. A máquina fotográfica estava ali perto, já com a Tamron de 500 mm montada. Mas entre mim e a ave existia um arame farpado. Para me aproximar teria de dar uma longa volta até ao último poste da vedação e regressar pelo outro lado.

Parecia impossível.

Além disso, a luz do dia estava a desaparecer rapidamente. Com uma lente f/8 e um simples rolo de 400 ASA, não havia muito tempo para hesitações.Lembro-me de pensar que, no instante em que fosse buscar a máquina, o cartaxo voaria.

Mas ele continuava ali.

Imóvel.

À espera.

Acabei por arriscar.

Fui buscar a Nikon, contornei a vedação e avancei devagar, passo a passo, tentando não abusar da paciência daquele pequeno pássaro que parecia tolerar a minha presença melhor do que eu esperava. Quando cheguei a uma distância razoável, parei. Disparei!

Não disparei duas vezes.

Nem três.

Apenas uma!

No exacto momento em que o obturador se fechou, o cartaxo levantou voo.

A fotografia ficou. Ligeiramente sub exposta, mas nítida.

O pássaro desapareceu.

E esse único instante, suspenso entre a luz do entardecer e o início da noite, acabou por atravessar mais de trinta anos e chegar até aos dias de hoje.

Algum tempo depois imprimi algumas fotografias e fui visitar o meu amigo António Araújo ao Instituto de Conservação da Natureza, em Lisboa. Entre elas estava esta, da qual me sentia particularmente orgulhoso. Mostrei-lha e, quase em tom de desafio, perguntei-lhe se seria capaz de adivinhar em que lugar de Portugal tinha sido captada.

Nem hesitou.

— Foi naquele arbusto que fica depois do arame farpado, junto ao sítio onde costumamos montar o acampamento.

Fiquei de boca aberta! Não apenas porque acertara, mas porque respondera com a naturalidade de quem reconhece o quintal de casa. Naquele instante percebi verdadeiramente o que significava conhecer um lugar, observar a natureza com atenção e dedicar uma vida inteira ao estudo das aves.

Hoje continuo a gostar desta fotografia. Não pela sua qualidade técnica. Não porque seja de uma espécie rara ou espectacular. Gosto dela porque me recorda um encontro improvável em África, um homem generoso que me abriu uma porta para um novo mundo e um pequeno cartaxo pousado num arbusto do litoral alentejano que, mais de trinta anos depois, continua a trazer-me todas essas memórias de volta. E isso agradece-se à vida!

Tenho apenas uma pena: como foi fotografada em filme, já não possuo o original, apenas esta pequena cópia em papel fotográfico. Mas talvez isso também faça parte da história. Algumas coisas perdem-se com o tempo. Outras permanecem vivas na memória, como esta fotografia e as pessoas que a tornaram possível.

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